quarta-feira, 9 de maio de 2012

FIM - l


Era podre refrescante o cheiro da respiração do homem de meia idade que entrou no ônibus, se pois ao meu lado, em pé no corredor lotado. Acredite! eu ouvi seu estômago murmurar algo, nada que se pudesse entender, se isso fosse possível. Ônibus viação Anapolina nº 0682 itinerário 13h, BSB/Luziânia.

Corredor do ônibus lotado. Nada fez a não ser olhar para o espaço vago, só caminho, nada mais.  Fitava longe, parecia nervoso, o suor escorria no lado direito da fronte até próximo a orelha. Me olhou nos olhos por alguns segundos, logo pressenti algo estranho, minha intuição nada disse em frase consciente.
As axilas estavam empapadas de suor,  pressionava a barra de ferro para apoiar-se, mastigando faminto  uma chiclete de menta.

O motorista um senhor de óculos fundo de garrafa, equilibrado na ponta do nariz, seguindo o caminho com velocidade e avidez, com o dedo indicador arrumava os óculos agora na posição correta. Algumas senhoras sentadas nos assentos preferenciais, uma jovem fingindo que dormia, um homem engravatado cabisbaixo de olhar triste e cerrado, algumas crianças com uniformes escolares e uma adolescente com um cabelo milimetricamente penteado e muito molhado.

A cobradora sentada com as pernas cruzadas, com um livrinho amarelado aberto a um 1/3 do fim debruçada por cima do caixa. O livrinho segurado com o antebraço na horizontal, apoiando-se na parte inferior. Nada havia de tirar-lhe a concentração.

Mas sim! Houve...
Um grito!...
Um grito de uma voz velha...
Uma gargalhada... de um senhor com um celular enterrado na orelha.

Em um susto, a cobradora saiu da história que lia e mostrou o que os cabelos escondiam, um rosto muito bonito com belas feições negra, de nariz muito fino pontiagudo talhado no escopo, e olhos que pareciam fazer mil perguntas. Um Solitário botão esquecido de ser abotoado, mostrando seu decote, bonitos seios devo admitir. 

Arqueou a coluna como uma gato espreguiçando, descansando novamente o ante-braço no livrinho de letras miúdas e recomeçou a lerO homem parecia ainda estranho, estava passando mal ou estava enjoado talvez, coçava a barba por fazer, parava e fitava todos, parecia uma por vez. Tudo estava estranho, os buracos na estrada parecia não mais incomodar, todos já tinham sentido o clima, nada disseram uns aos outros, se entreolhavam faziam pequenos gestos e nada.
                                                                         
O transporte parou, ainda não no destino. Todos sentiam o que senti, ao menos assim eu pensava. Um senhor gordo baixo careca mas de cabelos cumpridos nas laterais da cabeça, entrou. Uma figura, logo imaginei o pinguim, tirou  atenção da cobradora, parando perto da roleta. Nada esboçou,  no entanto um fato interessante aconteceu. Um breve cumprimento de positivo, com a cabeça. Quase imperceptível para o Senhor de comportamento estranho, creio que todos viram nada comentaram e nem gesticularam.
  
O senhor aparentava estar comportando-se naturalmente, após uns 20 minutos mais ou menos, os demais passageiros também, um estranho silêncio absurdo reinava. A cobradora, por sua vez estava terminando o livro, o vento levava o seu cabelo e a gola da camiseta sibilava com o vento, chamando atenção para o seu decote, descruzou as pernas outra vez mostrando o salto do sapato sujo de lama vermelha, sua mão direita passou tentando organizar os cabelos, a unha do dedo indicador agora estava entre seus dentes as cutículas não existiam e nem o esmalte, pairava o cabelo lembrando uma cortina de renta ao vento. O Motorista do mesmo modo com o óculos na ponta do nariz, de olhos fixos e atenciosos um tanto sem brilho.

Uma voz rasgou no corredor do ônibus.

– NINGUÉM VAI SE MEXE!

O Homem engravatado na parte da frente do ônibus despenteou-se ao gritar com a Cobradora, que esboçou apenas a reação de susto, e olhou estática para o Homem Engravatado. Reforçou falando a meia voz e com uma veio em sua testa quase explodindo.

–TIRA TUDO QUE VOCÊ TEM AI NO CAIXA! ANDA ISSO É RÁPIDO!!! NÃO TENHO O DIA TODO SUA PUTA NOJENTA!!! VAMOS PORRA!!! ANDA!!!

O Motorista, já sem os óculos, tremia, estava pálido e  mordiscava os lábios com os dentes inferiores amarelados e de estranha formação. A Cobradora se viu viva, e começou a entregar o dinheiro, o entregou em mãos, que logo o Homem encarregou-se  de por no bolso de seu paletó. O Livrinho sempre em sua mão esquerda parecia não incomodar ninguém durante toda a cena, que resolveu aparecer.

Num solavanco de algum buraco na estrada desprendeu-se dos dedos da dona, que como num raio de um movimento brusco, tentou pega-lo no ar, conseguindo segurar-lhe com os dedos em pinça na ultima página. 
O senhor engravatado precipitou-se  disparando contra o peito da Cobradora, abrindo-lhe mais um botão e sua camiseta.

Caiu seca, chegou quicar a cabeça no caixa. Nas pontas dos dedos chegou uma correnteza de sangue venoso, molhando a última página do livrinho amarelado quase de essência, mas no momento, rubro e mole, de tão molhada a ultima página não aguentou e o livrinho caiu no assoalho do ônibus.

E sibilaram a gola da camisa, os cabelos e a ultima página do livrinho presa nos dedos da mulher. Na derradeira página quase ilegível, escrita esta a palavra FIM. 

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