Era podre
refrescante o cheiro da respiração do homem de meia idade que entrou no ônibus, se pois ao meu lado, em pé no corredor lotado.
Acredite! eu ouvi seu estômago murmurar
algo, nada que se pudesse entender,
se isso fosse possível. Ônibus viação Anapolina nº 0682 itinerário 13h, BSB/Luziânia.
Corredor do ônibus lotado. Nada fez a
não ser olhar para o espaço vago, só
caminho, nada mais. Fitava longe,
parecia nervoso, o suor escorria no lado direito da fronte
até próximo a orelha. Me olhou nos olhos por alguns segundos, logo pressenti algo estranho, minha intuição nada disse em frase consciente.
As axilas estavam empapadas de suor, pressionava a barra de ferro para apoiar-se,
mastigando faminto uma
chiclete de menta.
O motorista um senhor de óculos fundo de garrafa, equilibrado na ponta do nariz, seguindo o caminho com velocidade e avidez, com o dedo indicador arrumava os óculos
agora na posição correta. Algumas senhoras sentadas nos assentos preferenciais, uma jovem fingindo que dormia, um homem engravatado cabisbaixo de olhar
triste e cerrado, algumas crianças com uniformes escolares e uma adolescente com um cabelo milimetricamente
penteado e muito molhado.
A cobradora sentada com as pernas cruzadas, com um livrinho amarelado aberto a um 1/3 do
fim debruçada por cima do caixa. O livrinho segurado com o antebraço na
horizontal, apoiando-se na parte inferior. Nada havia de tirar-lhe a concentração.
Mas sim! Houve...
Um grito!...
Um grito de uma voz velha...
Uma gargalhada... de um senhor com um celular enterrado na orelha.
Em um susto, a cobradora saiu da história que lia e mostrou o que os cabelos escondiam, um rosto muito bonito com belas feições negra,
de nariz muito fino pontiagudo talhado no escopo, e
olhos que pareciam fazer mil perguntas. Um Solitário botão esquecido de ser abotoado, mostrando
seu decote, bonitos seios devo admitir.
Arqueou a coluna como uma gato espreguiçando, descansando novamente o ante-braço no
livrinho de letras miúdas e recomeçou a ler. O homem
parecia ainda estranho, estava passando mal ou estava enjoado
talvez, coçava a barba por fazer, parava e fitava todos, parecia
uma por vez. Tudo estava estranho, os buracos na estrada parecia não mais incomodar, todos já tinham sentido o clima, nada disseram uns aos outros, se entreolhavam faziam
pequenos gestos e nada.
O transporte
parou, ainda não no destino. Todos sentiam o que senti, ao menos assim eu pensava.
Um senhor gordo baixo careca mas de cabelos cumpridos
nas laterais da cabeça, entrou. Uma figura, logo imaginei o pinguim, tirou atenção da cobradora, parando perto da
roleta. Nada esboçou,
no entanto um fato interessante aconteceu. Um breve cumprimento de
positivo, com a cabeça. Quase imperceptível para o Senhor de
comportamento estranho, creio que todos viram nada comentaram e nem gesticularam.
O senhor
aparentava estar comportando-se naturalmente, após uns 20 minutos mais ou menos, os demais passageiros também, um estranho silêncio absurdo reinava. A cobradora,
por sua vez estava terminando o livro, o vento levava o seu cabelo e a gola da
camiseta sibilava com o vento, chamando atenção para o seu decote,
descruzou as pernas outra vez mostrando o salto do sapato sujo de lama vermelha, sua mão direita passou tentando organizar os cabelos, a unha do dedo indicador agora estava entre seus dentes as cutículas não existiam e nem o esmalte, pairava o cabelo lembrando uma cortina de renta ao vento. O Motorista
do mesmo modo com o óculos na ponta do nariz, de olhos fixos e atenciosos um tanto sem brilho.
Uma voz rasgou no corredor do ônibus.
– NINGUÉM
VAI SE MEXE!
O Homem
engravatado na parte da frente do ônibus despenteou-se ao gritar com a
Cobradora, que esboçou apenas a reação de susto, e olhou estática
para o Homem Engravatado. Reforçou falando a meia voz e com uma veio em sua
testa quase explodindo.
–TIRA TUDO QUE VOCÊ TEM AI NO CAIXA! ANDA ISSO É RÁPIDO!!! NÃO TENHO O DIA TODO SUA PUTA NOJENTA!!! VAMOS PORRA!!! ANDA!!!
O Motorista, já sem os óculos, tremia,
estava pálido e
mordiscava os lábios com os dentes inferiores amarelados e de estranha
formação. A Cobradora
se viu viva, e começou a entregar o dinheiro, o entregou em mãos, que
logo o Homem encarregou-se de por no bolso de seu paletó. O Livrinho sempre em sua mão esquerda parecia não incomodar ninguém durante toda a cena,
que resolveu aparecer.
Num
solavanco de algum buraco na estrada desprendeu-se dos dedos da dona, que como
num raio de um movimento brusco, tentou pega-lo no ar,
conseguindo segurar-lhe com os dedos em pinça na ultima página.
O senhor engravatado precipitou-se disparando contra o peito da Cobradora, abrindo-lhe mais um botão e sua camiseta.
O senhor engravatado precipitou-se disparando contra o peito da Cobradora, abrindo-lhe mais um botão e sua camiseta.
Caiu
seca, chegou quicar a cabeça no caixa. Nas pontas
dos dedos chegou uma correnteza de sangue venoso, molhando a última página do livrinho amarelado quase de essência, mas no
momento, rubro e mole, de tão molhada a ultima página não aguentou e o livrinho caiu no assoalho do
ônibus.
E sibilaram a gola da camisa, os cabelos e a ultima
página do livrinho presa nos dedos da mulher. Na derradeira página quase ilegível, escrita esta a
palavra FIM.
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