Meus olhos não abriam, não completamente. Meu pai disse com voz alta e firme um tanto mal humorada, mas com a delicadeza de mãe, era o costume.
- Acorda já tá na hora tu vai perder o ônibus!
Pus-me de pé, já vestido só calcei meus tênis nem os amarrei, não havia vontade de me ver ao espelho, minha mochila pesava nas minhas costas, o ponto de ônibus estava cheio de pessoas encolhidas por causa do frio, de cabeça baixa, de olhares altos e de aparência humilde.
A luz do coletivo apareceu no horizonte, não o vi, mas sabia pela inquietude das pessoas, que era o que eu de costume pegava, a lataria parou ao meu lado, fazia muito barulho parecia um mostro de filmes sem nexo, depois de alguns segundos estavam todas querendo entrar ao mesmo tempo dentro do veículo, espremendo-se e reclamando a cochichos.
O ônibus sai com um arranco, as pessoas do fundo reclamam. Não há lugares para sentar, quase não a lugar para ficar de pé. Velhos, novos, crianças, nem mulheres prenhas tem seu valor. As pessoas fingem ser normal, acomodar-se onde der, em um degrau o meu caso. Fiquei no meio de duas mulheres de meia idade, a da esquerda enterrou o queixo no peito e dormiu como as sacolas no colo, a outra enterrou nos ouvidos fones e fechou os olhos, a cada solavanco abria eles, vermelhos e de bordas pretas, pretas como a noite de um cego, e eu?
Perguntei-me. Será que toda essa realidade e verdadeiramente real? As coisas são
verdadeiramente assim desordenadas, sem um nexo aparente?
Minutos se passaram me percebi reclamando como eles, ou nós. Os vidros se embaçam e as crianças com faces cansadas, no entanto de espírito inquieto, tentam escrever ou desenhar algo, as pessoas já não se surpreendem com quase nada.
Um acidente na estrada, o sangue de vermelho vivo e que coagulava com os primeiros raios de sol, sendo sugado por um pano branco posto por um policial barrigudo com cara de sono e de poucos amigos.
As pessoas murmuravam "Como vou chegar?? Na hora? Quando chega atrasado patrão ainda pensa que a gente não quer trabalhar!"
Nessa altura as pessoas já abriram os zíperes das jaquetas, o lado da esquerda, o sol arde como se fosse meio dia. E a maquina assim seguia a rotina. E o ônibus gradativamente acelerando, o motor parecia cantar, mudando de tom a cada
marcha... e a progressividade dessa música segue até quando?!!!?...